Docência Ágil na Prática

Por Alonso Mazini Soler. Reprodução na íntegra da matéria, com autorização do autor

Do fundo da minha “cartola de mágicas”

Peço permissão ao leitor para escrever este artigo usando o pronome na 1ª pessoa do singular. Acredito que, muito mais do que conjecturar sobre o termo “Docência Ágil”, vale a pena mencionar as minhas próprias experiências de condução de aulas online síncronas durante o período de confinamento, visando ilustrar e contribuir para com as discussões e o aprimoramento docente.

Antes de tudo, quero deixar uma mensagem sincera de modéstia: eu não me considero um Professor “pronto” para os desafios da “Docência Ágil”, mas, definitivamente, tomei a decisão de me lançar num processo inquieto de aprendizagem e experimentação que poderá me conceder essa proficiência um dia. Adianto que não sou o Professor mais bem avaliado das Instituições para as quais trabalho e que consigo perceber que meus erros são mais frequentes do que meus acertos. Mas, também percebo que os erros são grandes aliados e incentivadores da minha jornada de aprimoramento. Não sou, portanto, um mágico com uma cartola repleta de surpresas prontas, mas sim, um aprendiz autodidata que tem muita vontade e, não tem medo, de experimentar!     

“Situando” as experiências retratadas

Vale mencionar que as experiências retratadas aqui foram realizadas durante os 3 primeiros trimestres de 2020, em disciplinas “spot” e/ou em disciplinas das trilhas seriadas de cursos de pós graduação lato sensu (Cerficates e MBAs) de Instituições de Ensino Superior privadas, localizadas em ambientes urbanos de grandes metrópoles. Essas Instituições não mediram esforços para me oferecer, como Professor, assim como aos Alunos, toda a infraestrutura e suporte adequados para o enfrentamento do desafio da migração abrupta para o modelo de aulas remotas. Como perfil geral, meus alunos, nesse período, foram jovens com pouco tempo de formados (0 a 5 anos), geralmente empregados e pertencentes às classes sociais A e B.

A “agilidade” na docência não está associada a fazer mais rápido!   

Tal como mencionado no artigo “Docência Ágil – Chamada à Ação” o termo “Docência Ágil” deve ser entendido pelo prisma do (novo) comportamento do Professor, que passa a incorporar os valores e princípios da “agilidade” na dinâmica da relação ensino-aprendizagem. A “Docência Ágil” não está associada à velocidade ou à pressa na condução das aulas, mas sim, à flexibilidade e adaptação contínua do ensino às características da turma, visando promover maior aprendizado.

Minha experiência com a “Docência Ágil” foi dirigida à flexibilização e adaptação do conteúdo e da forma das aulas durante os trimestres letivos de 2020, observadas as características das turmas e em resposta direta às demandas e interesses dos Alunos, visando promover maior aprendizado.

Muito mais do que me adaptar aos formalismos dos frameworks ágeis, tais como os papéis, cerimônias e artefatos do SCRUM, a “agilidade” que relato abaixo, esteve dirigida à manutenção de um “estado de atenção contínuo” aos interesses da turma durante os trimestres letivos e à “abertura às mudanças”. Seguem algumas práticas que adotei em aulas incorporando os valores e princípios ágeis:

Sobre o planejamento do ensino – uma “visão geral” das entregas de cada aula

Imediatamente após o anúncio da opção pelas aulas remotas, revisei os planos de ensino originais, preparados para atender ao modelo presencial, adaptando tempos, conteúdo e a forma das aulas ao alcance dos objetivos cognitivos das disciplinas sob minha responsabilidade.  

Através de diagramas de “modelo mental” reorganizei os conteúdos e priorizei os temas e subtemas que deveriam ser abordados durante as aulas, assim como elenquei os principais temas que poderiam ser conduzidos de modo paralelo, como atividades extraclasse – um exercicio de “desapego” diante do “Paradoxo Conteúdo x Tempo” das aulas online síncronas.

Cada aula semanal, de cada disciplina, foi interpretada como um “sprint” (ver os detalhes do framework SCRUM) que exigiu planejamento adequado visando a “entrega” de um “pacote de conteúdo”, associado a um tema específico passível de ser trabalhado no tempo fixo de duração das aulas (2,5 a 4 horas). Nesse planejamento, os meus momentos e tempos de aula expositiva foram condensados e os tempos e momentos de interação individual e em grupo com os Alunos foram ampliados.  

Repassei o planejamento de ensino com cada uma das Coordenações dos Programas e discuti a nova dinâmica com as turmas, sempre na 1ª aula de cada disciplina ministrada, repassando a “visão geral” do planejamento elaborado, e enfatizando a minha predisposição para flexibilizar e adaptar o plano diante dos interesses e da participação da turma. Conversamos sobre a individualização do ensino, autonomia do Aluno e a sua parcela de responsabilidade e protagonismo no seu próprio processo de aprendizagem.

Sobre a estrutura tecnológica – AVA e o ambiente de videoconferência

Passei, como tantos outros colegas, a aprender e fazer uso intensivo dos Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA) disponíveis nas Instituições, organizando e disponibilizando todo o material digital em pastas específicas para cada aula (tema).

Dentro das pastas eu compartilhei pequenos vídeos (“hello’s”) gravados para a introduzir e motivar o aluno para cada encontro de aula, publiquei o material de slides, textos de orientação programática, exercícios prévios e posteriores (“Entrance e Exit Quiz”) e material complementar de reforço ao aprendizado do conteúdo que me pareciam adequados e de interesse da turma (curadoria de conteúdo). Fiz uso intenso dos recursos dos “Fóruns de Discussão” para a publicação de “Questões Desafios” e para o aprofundamento de respostas às dúvidas e interesses dos Alunos não totalmente explorados durante o tempo das aulas.

Estudei e tentei adaptar a forma de condução das dinâmicas de aulas aos diferentes recursos dos diferentes ambientes de videoconferência disponíveis em cada Instituição – uma dificuldade enorme, pois cada um deles tem regras e funcionalidades específicas que facilitam, ou dificultam, a condução da dinâmica planejada da aula.

Sobre as apresentações de aula

Organizei todas as apresentações de aula de acordo com um roteiro padrão estruturado que, logo no início, reproduzia o modelo mental geral da programação das aulas e esclarecia o tema daquela aula específica, seu objetivo cognitivo e relações com os temas das demais aulas (anteriores e posteriores) através de uma “Questão Chave” que deveria ser respondida pelo Aluno ao término da aula.

Na sequência, o tema da aula era contextualizado para o Aluno – geralmente através da projeção de um trecho de um vídeo, uma notícia de jornal atual (escrita ou em vídeo), uma discussão que causou alguma controvérsia durante a semana, etc. O objetivo da contextualização inicial era chamar a atenção e provocar o interesse do Aluno para o tema da aula, fazendo uma associação direta deste com algo que pudesse ser significativo para ele na relação profissional e/ou na percepção pessoal localizada geopoliticamente.

“Vendida” ao Aluno a motivação para com o tema da aula, cada uma delas era conduzida intercalando momentos expositivos do Professor e momentos de interação com os Alunos (individual e em grupo), “quebrando” analiticamente, o tema da aula nos subtemas prioritários. 

Sobre os casos de flexibilidade e adaptação – Lei Rouanet, Vacinas contra o Coronavírus, LGDP, Elon Musk e Neymar

O “estado de atenção contínuo” e a “abertura às mudanças” que mencionei no início deste artigo implicaram na percepção da ocorrência de eventos (anunciados ou não pela mídia) durante o período de tempo entre aulas que, de algum modo, incitavam o interesse imediato do Aluno e que podiam ser adaptados e trabalhados em classe, sob as lentes dos objetivos e temática da disciplina, oferecendo maior pertinência e contexto ao conteúdo ministrado.

Como ilustração da flexibilidade e adaptação das aulas, logo na primeira aula de uma disciplina intitulada “Proposição de Projetos” uma aluna transportou o tema ao seu ambiente profissional e me questionou sobre as novas regras dos editais na Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet) que reduziu de R$ 60 milhões para R$1 milhão o teto de captação por projeto, visando “evitar a concentração do incentivo nas mãos de poucos proponentes, garantindo melhor distribuição dos recursos e ampliando acesso (sic)”. Obviamente o tema era totalmente pertinente, mas eu não o havia considerado na preparação da aula. Outros alunos se envolveram e eu tive que ajustar o meu papel de Professor, facilitando o debate inesperado e dirigindo as discussões para os assuntos de interesse da aula. Ao término da aula, postei um Fórum de Discussão específico para os projetos culturais da Lei Rouanet que ficou ativo durante todo o período letivo e que teve grande participação dos Alunos.

Em outra situação, eu estava apresentando um fluxo geral de aprovação de projetos quando um aluno mencionou a demora no ciclo de aprovação e testes das vacinas contra o Coronavírus. Ele trouxe informações sobre o rigor do cumprimento das etapas dos ensaios clínicos e a situação das vacinas que estavam sendo testadas no Brasil. Obviamente, devido à importância do tema na vida pessoal e familiar dos alunos, o assunto foi aberto e discutido amplamente, contando com a minha facilitação e, sempre, minha tentativa de direcionamento das discussões para o tema da aula. Ao término, diversos alunos continuaram “ligados” e eu decidi gravar uma aula assíncrona complementar fazendo a relação do assunto debatido com o tema da aula. A aula-extra foi gravada no dia seguinte, postada no AVA e os alunos participaram ativamente com comentários durante todo o trimestre.

A LGPD (Lei Geral de Proteção aos Dados) que entrou em vigor há poucas semanas no Brasil, também foi alvo de adaptações de uma aula cujo tema era “estimativa e criação de demanda para projetos de inovação”. O tema transcorria de acordo com o planejado. Eu mencionava o uso de dados das “pegadas digitais” deixadas pelas pessoas nas redes sociais, quando uma aluna pediu a palavra e mencionou os escândalos de uso inadequado de dados pessoais envolvendo eleições e manipulação pessoal. O assunto foi calorosamente debatido e a LGDP veio à tona espontaneamente durante as discussões. Vale ressaltar que a LGPD já estava planejada como um subtema a ser abordado mais à frente, nessa mesma aula. Como resultado, combinamos assistir ao filme “The Social Dilemma” e eu abri espaço na aula seguinte para um debate dirigido à polêmica no contexto da criação de demanda para projetos de inovação – “como e quando podemos usar os dados pessoais para criar demanda para novos projetos”?

Elon Musk e suas realizações atuais com a SpaceX e com a NeuraLink entrou nos debates de uma aula cujo tema era a “viabilidade financeira de projeto”, rendendo dezenas de discussões em Fórum, aberto posteriormente no AVA e apoiando minha aula sobre critérios intangíveis usados na sustentação da aprovação de projetos organizacionais. Do mesmo modo, a polêmica recente envolvendo o jogador Neymar numa questão sobre racismo durante um jogo de futebol, foi abordada numa aula sobre “responsabilidade e ética na proposição de projetos”.

Ops! Flexibilidade e adaptação de conteúdo em duração fixa de aula

Enfim, enumerei acima alguns poucos exemplos representativos da flexibilidade e adaptação na condução do conteúdo e na forma de minhas aulas. De fato, minhas experiências didáticas nos três trimestres de condução de aulas online síncronas, me levaram a anotar centenas de (pequenos e grandes) ajustes no planejamento inicial das aulas em decorrência do interesse da turma e visando aumentar o aprendizado dos alunos.

Certamente, cada nova interação inesperada durante as aulas, tenham sido elas provocadas pela turma, ou planejada oportunamente por mim, ao reconhecer em uma nova notícia de jornal, um assunto pertinente para ser discutido no âmbito do tema da próxima aula, consumiram tempo adicional de aula e modificaram o planejamento inicial da aula. Deu muito trabalho! Dediquei muito esforço e não foi fácil, mas, por outro lado, as aulas “voavam” no tempo e eu pude sentir o protagonismo dos alunos ao reconhecerem o tema das aulas no seu dia-a-dia e sentirem seus interesses considerados e atendidos pelo Professor.  

O meu comportamento como Professor, corroborando a definição do termo “Docência Ágil”, mencionada acima, se pautou pela abertura e receptividade às mudanças e pela opção às preferências dos alunos relacionadas à prioridade e à ilustração do conteúdo da aula, em detrimento do plano previamente elaborado por mim. Obviamente, destaco, levando em consideração a pertinência dessas opções relativamente aos objetivos da disciplina ministrada – nunca se tratou de deixar a conversa “rolar” livremente durante a aula de modo caótico e irresponsável, mas de saber identificar a oportunidade e reconhecer o valor da participação do Aluno na condução da aula em prol do seu próprio processo de aprendizagem.

A participação do aluno na aula, instigando o seu aprendizado, é tudo o que conta!

Me pareceu claro, nas experiências que realizei, que a contribuição de um único aluno ao levantar uma dúvida, ao ilustrar e/ou propor um debate acerca do conteúdo da aula, pode ser imensamente mais valorosa para o aprendizado da turma, do que uma ideia preparada, precisa e previamente, pelo Professor. Portanto, um dos grandes aprendizados que posso compartilhar com meus pares é que a atenção dada pelo Professor às manifestações dos alunos durante da aula, tende a ser mais importante para o aprendizado da turma do que o cumprimento rigoroso do plano elaborado, o que ilustra o comportamento típico de um “Docente Ágil”.      

Sobre o autor: Alonso Mazini Soler, Doutor em Engenharia de Produção POLI/USP. Professor da Pós Graduação do Insper, da FIA e da Plataforma LIT Saint Paul. Sócio da J2DA Consulting e da Schédio Engenharia Consultiva – amsol@j2da.com.br

Fonte: https://blogdosoler.wordpress.com/2020/09/30/docencia-agil-na-pratica/

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